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“Consumidor quer experiência única”, afirma o presidente da Unedestinos

“Consumidor quer experiência única”, afirma o presidente da Unedestinos

Publicado em: 11/06/2019

Dados demográficos estão entre os critérios mais usados por empresas e gestores de marketing para fazer a segregação de público e traçar estratégias de lançamento ou venda de produtos ou serviços. Também não são poucas as marcas e instituições que determinam o planejamento de marketing considerando apenas faixas sociais.

Mas para o executivo Toni Sando já não faz mais sentido a classificação por renda, idade, gênero ou região de domicílio. “A classificação se faz por gostos. As pessoas fazem esforço para ter uma experiência única”, assegura.

Sando preside o São Paulo Convention & Visitors Bureau, que agora é Visite São Paulo, e tem seu trabalho focado no setor de turismo. Anteriormente, o executivo trabalhou no mercado financeiro e foi gerente de marketing na América do Sul da Accor Hotels, sendo responsável pelo posicionamento e comunicação das marcas Sofitel, Novotel, Mercure, Parthenon Ibis e Formule 1.

No mês passado, a convite do Maringá e Região Convention & Visitors Bureau, o executivo esteve em Maringá participando da Expoingá 2019. Na palestra, ele destacou a importância da iniciativa privada assumir o papel de protagonista para alavancar o turismo. “Não se pode ficar esperando que uma grande campanha publicitária do governo  mude a história de um país, porque não muda. O que as pessoas procuram é preço, proposta e experiência, e isso quem tem é a iniciativa privada”, disparou.

Em entrevista à Revista ACIM, Sando também falou sobre planejamento de marketing, consumo e turismo:

O que precisa ser levado em consideração na hora de traçar o planejamento de marketing? 
Sou administrador de empresas e presidente de uma entidade em São Paulo cuja especialidade é trabalhar com marketing de destino. Nesse segmento, o primeiro passo é entender o público, a capacidade que a cidade tem de receber determinados visitantes e incentivar os moradores a receber bem esse público. E também fazer com que a cidade saiba o que está acontecendo dentro do seu habitat. Geralmente o morador não entende que é beneficiado pelos recursos econômicos que o visitante traz. No caso do marketing de destino, o grande desafio é envolver a comunidade. É fazer o empresário dos mais diferentes setores entender que ele faz parte de uma cadeia produtiva, que o visitante está trazendo dinheiro para a economia local. O turista pode não entrar no supermercado, mas o supermercado pode vender mais para os hotéis se houver maior ocupação. O turista não visita pontos de distribuição, mas os estabelecimentos visitados precisam ser reabastecidos. Depois vem a parte mais simples, que é promover e criar ações para o visitante usufruir na cidade

Por que é tão difícil conseguir engajamento do empresariado e da comunidade nas cadeias produtivas? 
O problema do Brasil, de forma geral, é que o empresário sempre ficou muito refém das ações do governo. Quando se tem um governo atuante, o empresariado participa. Quando se tem um governo não atuante, o empresariado não se mobiliza para assumir o papel de protagonista. Não existe salvador da pátria. Existe um grupo que consegue entender que trabalhando em conjunto pode mudar o destino de uma cidade. Mas para isso, precisa de mobilização, encontros setoriais, debates, saber onde pode contribuir para que a cidade prospere. Devemos cobrar do setor público aquilo que é do setor público exclusivamente, que é infraestrutura, mobilidade urbana e segurança pública, por exemplo. Se cada um trabalhar no seu quadrado, todo mundo ganha.

E isso vale para qualquer segmento econômico?
Com certeza. Hoje, além da alta carga de impostos e das dificuldades trabalhistas, o país não facilita muito para as pessoas empreendedoras. O fato é que, sem empreendedorismo e iniciativa, ninguém chega a lugar nenhum. Por isso, a sociedade civil precisa ser mais organizada, atuar mais em conjunto, debater e assumir o seu papel. Incentivamos o mercado associativo e mercadológico, porque se não participamos e não tomamos decisões, alguém vai participar e tomar decisões que talvez a gente não concorde. Nesse aspecto é que as associações comerciais, setoriais e sindicatos são tão importantes, para fazer a sociedade arregaçar as mangas e trabalhar em conjunto.

De que forma a tecnologia tem impactado o consumo?
Basicamente tudo na nossa vida está relacionado a redes sociais. Na hora de fazer compras em um supermercado as pessoas sabem os preços antes de entrar nele. Quando viajam, viram no Google tudo sobre o destino sem nunca ter pisado lá. Quando compram um bilhete aéreo ou fazem reserva de hotel, elas já pesquisaram os preços em vários aplicativos. O comportamento do consumidor mudou na medida em que o sistema proporcionou informações imediatas, rápidas e ágeis. Ou seja, a tecnologia alterou a capacidade das pessoas tomarem decisões.

E o que pesa na hora do consumidor tomar essas decisões?
Vivemos em uma sociedade de experiências, onde se experimenta coisas novas e se descarta o antigo. Hoje a classificação de consumidor não se faz mais por renda, mas por gostos. O consumidor pode até ter pouco dinheiro, mas quer ter prazer único e gasta o que pode para conseguir. Há também quem tem muito dinheiro, porém quer conhecer algo simples, que possa ser uma experiência única.

Na prática, de que forma isso reflete no marketing? 
O grande desafio do profissional de marketing é entender para que público vai vender. Para isso, precisa de pesquisa, não pode ser no achismo. O problema é que hoje existe uma ‘juniorização’ grande na área de marketing, até por questões salariais. Opta-se por profissionais sem tanta experiência e isso prejudica o sistema. Existe um debate grande sobre consumidores novos, gerações X e Y, mas o que muitos não entendem é que o maior mercado consumidor é para os que passaram dos 50 anos. A geração que menos consome é a jovem, que hoje é despojada, não quer ter carro, quer morar com os pais a vida toda, prefere viajar do que ter carreira. Para lançar qualquer produto de consumo ou de experiência, é preciso ter muito claro quem é público. Muitas vezes a comunicação está atingindo um grupo que nunca vai consumir o que está sendo oferecido.

O Brasil ainda ensaia a retomada do crescimento econômico. Qual é a expectativa para o setor de turismo?
Existem as expectativas e a realidade. E esta última é nua e crua. O Brasil não cresceu no primeiro trimestre e isso compromete o segundo trimestre, sinalizando uma recessão branca. O turismo pode ser uma grande arma para reverter essa situação econômica ao incentivar a circulação de pessoas e o consumo. É claro que não podemos esquecer que há mais de 12 milhões de desempregados e a indústria parou. Isso dificulta toda a cadeia. Ainda assim, o setor está entusiasmado. São Paulo vai lançar uma campanha de R$ 50 milhões promovendo o estado numa tentativa de mostrar a força econômica do turismo e gerar novas receitas.

Dá para pensar em investimentos neste cenário?
Para quem tem dinheiro é o momento de investir. Com o dólar acima dos R$ 4, o custo para o investidor de fora está quatro vezes menor. O problema é que incertezas políticas comprometem a decisão de grandes fundos que vivem de análises. Talvez o país tenha que esperar mais alguns meses até que essas análises sinalizem que as contas públicas estão no caminho certo. Sem isso, dificilmente novos recursos virão.

O turismo tem recebido a devida importância na pauta econômica?
O governo Bolsonaro tem falado mais de turismo do que os governos anteriores. O Ministério do Turismo foi mantido e a partir de julho será liberada a entrada de turistas dos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Japão sem visto, numa demonstração de atrair mais visitantes para o país. A liberação da vinda de companhias aéreas internacionais é outra demonstração do esforço de acelerar o crescimento da malha aérea brasileira. O Brasil também poderá explorar melhor suas belezas naturais com a liberação de parques naturais para o setor privado.

O senhor vê potencial turístico em Maringá?
Maringá é uma cidade estruturada. Foi bem organizada e teve bons governantes. O Parque do Japão, que era mantido por uma associação, demonstra claramente a força que uma associação pode ter, empresarialmente falando. Na verdade, todas as cidades têm potencial, só precisam descobrir a sua vocação.

No fim do ano a prefeitura realiza a campanha Maringá Encantada e demonstrou o desejo de transformar o projeto em algo semelhante ao Natal de Gramados/RS. Que caminho é preciso trilhar para alcançar esse objetivo?
Se a administração tiver estímulo e colocar nas mãos da iniciativa privada, o sucesso é garantido. No Japão tem uma cidade que realiza um concurso de desenhos de samurai e gueixas nas plantações de arroz e atrai turistas. Tiradentes, em Minas Gerais, e Paraty, no Rio de Janeiro, recebem milhares de visitantes por conta de festivais de cinema, gastronômicos e literários. Tudo é possível desde que tenha alguém para liderar e mobilizar. O segredo está na mobilização. Infelizmente o brasileiro não é muito adepto do associativismo, não é comprometido com causas e nem tem o hábito de retribuir. Precisamos aprender com os países de primeiro mundo que se não dermos nada, nunca receberemos nada.

Por: Revista ACIM
Foto: Walter Fernandes